INSCRIÇÃO: 01124
 
CATEGORIA: PP
 
MODALIDADE: PP09
 
TÍTULO: Não dê Sinal Aberto à Ignorância
 
AUTORES: RODRIGO SÉRGIO FERREIRA DE PAIVA (UIVERSIDADE CATÓLICA DE PERNAMBUCO); AMANDA COELHO NETTO LUCENA (UIVERSIDADE CATÓLICA DE PERNAMBUCO); ANDRESSA RIVAS COSTA (UIVERSIDADE CATÓLICA DE PERNAMBUCO); GUILHERME LIRA SOUTO PENA (UIVERSIDADE CATÓLICA DE PERNAMBUCO); IGOR CÉSAR DA SILVA SANTOS (UIVERSIDADE CATÓLICA DE PERNAMBUCO); GABRIELA ROCHA BARROS COELHO (UIVERSIDADE CATÓLICA DE PERNAMBUCO)
 
PALAVRAS-CHAVE: anúncio, conscientização, cotas raciais, racismo institucional,
 
RESUMO
O anúncio impresso intitulado “Não dê Sinal Aberto à Ignorância” foi produzido dentro do curso de Comunicação Social – Publicidade e Propaganda da Universidade Católica de Pernambuco (UNICAP), com o objetivo de transmitir uma mensagem de conscientização acerca do sistema de cotas raciais para estudantes universitários. A peça foi solicitada para a 3ª edição do projeto “Lente de Aumento”, realizado pelo próprio curso, cujo tema foi “Diversidade na Comunicação: Publicidade Para Todxs e Por Todxs.”. Uma sondagem acerca da representatividade negra e do racismo institucional foi realizada para identificar um problema de pesquisa, onde o sistema de cotas raciais é associado equivocadamente ao privilégio de um grupo social. Foram utilizados fundamentos da Gestalt e conceitos básicos de direção de arte, criação e redação publicitária na idealização e confecção do anúncio.
 
INTRODUÇÃO
Ainda identificado na atual realidade brasileira, o racismo institucional corresponde às diversas manifestações, práticas e atitudes hostis, discriminatórias e preconceituosas, diante das diferentes etnias e segregações raciais. Trata-se de uma questão social marcada por lutas e superações em prol do empoderamento negro, submetida a um processo sócio histórico marcado pela construção da consciência negra e sua valorização dentro da sociedade ao longo das décadas. No Brasil, escolas e faculdades de diferentes partes do país se tornam palco da discriminação racial institucional, o que compromete a inclusão do negro nas instituições de ensino, assim como a sua futura inserção no mercado de trabalho. O sistema de cotas raciais é aplicado dentro das instituições públicas e privadas de ensino no Brasil para amenizar a desigualdade social e promover a integração de negros de baixa renda em instituições de ensino superior. Esse sistema, no entanto, é associado por jovens universitários de valores conservadores e tradicionais a ideais de privilégio e favorecimento, não sendo enxergado como uma causa de justiça social a favor da integração do negro no sistema educacional. Além disso, o sistema também é enxergado negativamente por não corresponder a uma solução efetiva para o problema de integração social. Valores históricos, culturais, religiosos e políticos vindos desse público elitista contribuem para a formação dessa atribuição negativa às cotas raciais. Esses valores promovem ainda uma visão de superioridade, preconceito e/ou ignorância perante alunos negros e cotistas. Por meio da informação e da comunicação, esses valores equivocados acerca das cotas raciais podem ser desconstruídos em um processo de conscientização perante jovens universitários.
 
OBJETIVO
O objetivo geral da peça produzida é solucionar o problema de comunicação identificado, desconstruindo associações negativas ao sistema de cotas raciais. O anúncio elaborado busca conscientizar a respeito da importância sócio histórica das cotas raciais dentro da realidade brasileira e também reforçar a representatividade negra dentro das instituições de ensino no Brasil. A peça busca apoiar essa causa social, sendo destinada inicialmente ao projeto “Lente de Aumento”, realizado pelo curso de Comunicação Social – Publicidade e Propaganda da UNICAP – Universidade Católica de Pernambuco, cuja temática foi “Diversidade na Comunicação: Publicidade Para Todxs e Por Todxs.” O objetivo do projeto é promover a integração e a diversidade de diferentes gêneros e raças, abordando causas e temáticas sociais relacionadas à prática publicitária que necessitam ser debatidas e trabalhadas no ambiente acadêmico. O anúncio busca atingir um público de jovens brancos, futuros e atuais universitários, heterossexuais, de ambos os sexos, entre 17 e 25 anos, de classe média e alta. Parte desse público é ainda definida por ser possuidora de valores tradicionais e conservadores, além de adotar uma visão equivocada perante a etnia negra e/ou o sistema de cotas raciais. Ingressam, ou buscam ingressar, universidades com o auxílio de revistas educativas relacionadas a vestibulares, conhecimentos gerais e exames como o ENEM – Exame Nacional do Ensino Médio. Espera-se que essa visão, atribuída como fruto de ignorância perante a real natureza do sistema, seja desconstruída e combatida, assim como atitudes discriminatórias dentro do ambiente institucional e nas redes sociais.
 
JUSTIFICATIVA
Abordar o racismo institucional e a influência social do sistema de cotas raciais representa uma temática contemporânea, que promove debates, conflitos e divergências ideológicas na sociedade brasileira. A criação do anúncio intitulado “Não dê Sinal Aberto à Ignorância” está submetida ao desafio de elaborar uma peça chamativa e criativa, que está sujeita ainda a interpretações polêmicas e equivocadas vindas do público alvo e também de outros perfis. Por ser uma peça que trabalha uma causa social, o anúncio possui a importância de construir uma abordagem objetiva e que traduza a mensagem que se deseja transmitir. Ao se dirigir diretamente a um público estabelecido como conservador e ignorante acerca de determinada questão, é importante utilizar uma linguagem visual atual e chamativa, acompanhada de um texto impactante e que não reprima diretamente o leitor, mas sim, que promova uma desconstrução de seus valores e um convite a aderir a novos ideais. A escolha da mídia anúncio de revista, dentro dos objetivos de comunicação estabelecidos, permite o contato direto da peça com o público, que possui acesso a revistas direcionadas a jovens estudantes. É importante que cada indivíduo atingido possa olhar ao seu redor e rever sua visão sobre a causa social. Seu convívio com alunos negros e cotistas também deve entrar nessa reflexão. Considerando que a manifestação de ideais no ambiente acadêmico também é transcendida para as redes sociais e outros canais de comunicação, também é válida a ideia de que a peça referencie o combate à ignorância acerca das cotas raciais também por esses meios, reforçando ainda mais o poder da comunicação.
 
MÉTODOS E TÉCNICAS UTILIZADOS
A primeira etapa da construção da linha criativa foi a realização de uma sondagem de dados e questões sociais acerca da representatividade negra e do racismo institucional dentro das instituições de ensino superior brasileiras. Por meio desse levantamento de dados, identificou-se que ambas temáticas permanecem atuais na sociedade, levando à necessidade de promover intervenções sociais a favor dessas causas. O sistema de cotas raciais representa uma questão polêmica dentro dessas temáticas, divergindo opiniões quanto a sua atuação e formulando um determinado problema de comunicação: Cotas raciais são vistas negativamente por serem associadas ao privilégio de um grupo social. Em seguida, foi realizada uma pesquisa acerca de campanhas e peças publicitárias que abordassem a temática da representatividade negra. Pode-se observar o uso criativo de frases racistas sendo desconstruídas, além do levantamento de questões importantes como a ausência de professores negros nas instituições de ensino. Também foram realizadas entrevistas com alunos negros cotistas e alunos de cursos privados acerca das cotas raciais e do racismo institucional, que apontaram uma divergência de opiniões a respeito da necessidade do sistema ou da eficiência da sua aplicação. Um questionário de pesquisa aplicado dentro da cadeira de Pesquisa em Publicidade reforçou a existência de uma ignorância acerca da importância do sistema de cotas raciais, correspondente ao público alvo definido anteriormente. Para a idealização do anúncio, foi elaborado um plano de comunicação. Trata-se do modelo comunicativo de Lasswell, proposto em 1948 para sintetizar o ato da comunicação por meio de questionamentos básicos e fundamentais. Determinou-se ainda que o layout do anúncio traria uma abordagem que, de alguma forma, associasse a ideia de frases e conceitos racistas à forma que são manifestados dentro das instituições e nas redes sociais como Facebook e Twitter. O desenvolvimento do plano de ação buscou situar os ideais a serem transmitidos pelo texto da peça, que deveria construir um raciocínio criativo por trás da mensagem de conscientização. Por fim, antes da criação definitiva do anúncio, foi determinado que o mesmo deveria conter entre seus elementos um Smartphone (representando a manifestação de ideais racistas além das instituições), um símbolo que transmitisse a ideia de comunicação virtual e o uso criativo de frases racistas identificadas na internet e redes sociais.
 
DESCRIÇÃO DO PRODUTO OU PROCESSO
A arte da peça foi elaborada com o programa Illustrator CC 2015, no formato de revista 20,2 cm x 26,6 cm (sangreado). O anúncio consiste na superfície de uma lousa escolar negra, onde um ícone de um aparelho celular encontra-se sobreposto em seu centro. Na tela do celular, está escrita a palavra “Ignorância”, termo também enfatizado no título da peça. Na área situada acima do celular, quatro frases são alinhadas conforme o símbolo de sinal Wireless (termo inglês cujo significado é rede sem fio). Essas frases são descritíveis como racistas e ignorantes em relação ao sistema de cotas raciais e sua função no processo de integração social. A elaboração das mesmas, realizada pela equipe desse trabalho, foi inspirada em discursos reais utilizados por jovens universitários que foram identificados nas redes sociais e sites variados de conteúdo informacional durante o processo de sondagem de dados. Essa abordagem permite aproximar o preconceito do público conservador, alertando tratar-se de uma prática comum, porém “mascarada” pelo anonimato utilizado na internet. A primeira e a terceira frase, de cima para baixo, abordam o questionamento de existir cotas para negros e não existir para brancos de classes sociais desfavorecidas. Assim como as demais frases, sua elaboração busca reproduzir o discurso do público alvo no dia-a-dia, que neste caso desconsidera a influência histórica perante a etnia negra que determina as atuais condições sociais de estudantes negros. A segunda se apropria da associação entre cota e privilégio, usando o discurso de que cotistas tomam as vagas daqueles que buscam entrar nas instituições por meio de sistemas tradicionais. E por fim, a última frase associa alunos cotistas a vagabundos, sugerindo que o sistema serve para atender alunos que não se dedicam e que não querem se esforçar para conseguir vagas em instituições de ensino. O alinhamento dessas frases está de acordo com os fundamentos da Gestalt, apropriando-se de um processo psico-fisiológico do cérebro humano que tenta organizar e dar sentido a formas e elementos aleatórios. A Gestalt se baseia na percepção sensorial do ser humano que cria a representação mais plausível mediante ao alinhamento dessas frases, agrupadas mentalmente em um processo de proximidade dos elementos reforçado pela semelhança estrutural ao símbolo Wireless. Logo, a experiência e conhecimento prévio desse símbolo são fundamentais para a compreensão do anúncio, que é dirigido a um público jovem. Todos esses elementos encontram-se propositalmente na região superior do anúncio, com o objetivo de promover a reflexão prévia do leitor antes que o conceito da mensagem do anúncio seja, de fato, esclarecido com os demais elementos da peça. No inferior da peça, encontra-se seu título e o corpo do texto. O título, “Não dê Sinal Aberto à Ignorância”, é construído a partir de uma figura de retórica, a metáfora, que dialoga com a arte produzida em cima de um sinal Wireless, realizando uma associação indireta por semelhança, entre o conceito de ignorância acerca do sistema de cotas raciais e a ideia de sinalização e transmissão dos ideais preconceituosos. O subtítulo, “Cota não é privilégio, é educação”, reforça em uma abordagem mais objetiva a desconstrução de cotas raciais como um privilégio, referindo-se ao sistema como um acesso ao necessário ensino educacional. O corpo do texto traz a mensagem: “Frases como essas marcam o dia-a-dia de alunos negros. As cotas raciais existem para combater desigualdades e promover a integração social. Abrir sua mente ajuda a abrir as portas da educação para quem precisa. Sinalize a favor dessa ideia.”. O texto publicitário redigido traduz o objetivo da peça com clareza, retomando os elementos visuais e o próprio título da mesma. O uso das cores Branco e Amarelo no texto remetem as cores mais comuns identificadas em giz escolares, reforçando também o contraste com o fundo escuro. Sua fonte manuscrita permite legibilidade na transmissão da mensagem, remetendo ainda à escrita do giz de cera para reforçar a ideia de um ambiente escolar. Pode-se destacar que o layout soma elementos visuais de teor tradicional com elementos modernos, para assim transmitir os diferentes cenários, abordagens e contextos da causa social em questão. Essa construção está de acordo com a sondagem realizada sobre a causa, que corresponde a uma problemática antiga que permanece identificável na atualidade. A peça é assinada pela ONG Educafro, que apoia as cotas raciais e possui parceria com diversas instituições de ensino que disponibilizam bolsas de estudo. Essa assinatura também ocorre em função de ser uma peça de teor institucional, social e idealizada para a veiculação em revistas educativas. Uma dessas revistas, considerada como um exemplo para possível veiculação, é a Guia do Estudante, da Editora Abril, por corresponder diretamente ao público-alvo da peça e abordar temáticas educacionais. Além disso, a editora possui uma distribuição de escala nacional e disponibilidade de assinatura da revista, permitindo a transmissão da mensagem com uma grande abrangência de leitores.
 
CONSIDERAÇÕES
Produzido na disciplina de Atividade Experimental IV, o desenvolvimento da peça permitiu a aplicação de outras disciplinas do curso de Comunicação Social – Publicidade e Propaganda ao trabalho, entre elas destacam-se Pesquisa em Publicidade, Expressão Gráfica, Produção Gráfica, Semiótica da mídia, Conceitos de Direção de Arte/Redação Publicitária e Metodologia de Pesquisa. A produção dessa peça gráfica possibilitou a aplicação prática e o aprofundamento de diferentes áreas do conhecimento publicitário. A pesquisa realizada acerca da etnia negra dentro das instituições de ensino superior no Brasil para esse projeto apontou que o racismo institucional é uma temática atual e que requer a necessidade de ser combatido pela comunicação. Dentro da área de publicidade e propaganda, cabe aos profissionais, e futuros profissionais, trabalharem elementos criativos e argumentações convincentes ao se lidar com causas e dilemas sociais. O resultado da peça atingiu as expectativas da equipe e dos organizadores do projeto, podendo ainda resultar em novas intervenções e propostas que busquem reforçar o empoderamento e a integração da etnia negra dentro das instituições de ensino. A representatividade negra dentro do ensino superior brasileiro é importante como um combate à exclusão social e à ignorância, devendo ser contemplada dentro da publicidade. O anúncio confeccionado apropriou-se de uma solução criativa eficiente e equilibrada que transmite seu objetivo de conscientização social com clareza. Transmitir a informação a estudantes universitários acerca da real natureza do sistema de cotas raciais é fundamental para a consolidação e o sucesso da luta pela representatividade negra no ambiente acadêmico, determinando mudanças reais e significativas para um produtivo cenário social dentro das instituições de ensino brasileiras.
 
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁICAS
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PRATES, Eufrasio. Teorias da Comunicação: Um resumo sobre Mauro Wolf. Brasília, N/e, 1996.

WOLF, Mauro. Teorias da comunicação. Lisboa, Presença, 1992.