UFMA concede título honoris causa a Profa. Margarida Kunsch
No último dia 25 de abril, a Profa. Dra. Margarida Kunsch, vice-presidente do Conselho Curador da Intercom, recebeu o título de Professor Honoris Causa da Universidade Federal do Maranhão (UFMA), em cerimônia presidida pelo reitor da instituição, Prof. Dr. Natalino Salgado Filho.
O Jornal Intercom publica aqui os discursos proferidas na ocasião pela própria Profa. Dra. Margarida Kunsch e pelo Prof. Dr. Esnél José Fagundes, que prestou uma homenagem à laureada durante a cerimônia.

Foto: Divulgação
Reitor da UFMA, Prof. Dr. Natalino Salgado Filho, concede título de Professor Honoris Causa à Profa. Dra. Margarida Kunsch.
Outras imagens da solenidade de entrega do título à Profa. Dra. Margarida Kunsch podem ser conferidas no seguinte endereço: http://imgur.com/a/XUO2E#5.
Pronunciamento de Margarida M. Krohling Kunsch por ocasião da concessão do título de professora honoris causa pela Universidade Federal do Maranhão, em 25 de abril de 2012, em São Luis, MA.
Magnífico Reitor da Universidade Federal do Maranhão,
Prof. Dr. Natalino Salgado Filho
Prezado Prof. Dra. Dra. Joanita Mota de Ataíde
Chefe do Departamento de Comunicação social da UFMA
Prezado Prof. Silvio Rogério Rocha de Castro
Coordenadora do Curso de Comunicação Social
Prezado Prof. Dr. Esnél Fagundes
Diretor do Núcleo de Eventos e Concursos da UFMA
Coordenador geral desta cerimônia e do congresso Abrapcorp 2012
Prezada Profa. Dra. Ivone de Lourdes Oliveira
Presidente da Abrapcorp - Associação Brasileira de Pesquisadores de Comunicação organizacional e de Relações Públicas
Caros colegas professores, parceiros da Abrapcorp, estudantes, profissionais e amigos.
Ser distinguida com esta láurea de professora honoris causa pela Universidade Federal do Maranhão constitui-se em um momento marcante na minha vida acadêmica. Este ato representa para mim, de certa forma, um coroamento de incessantes idas e vindas, de lutas e conquistas nos campos da Comunicação Organizacional e das Relações Públicas, ao longo de mais de 35 anos de atividades acadêmicas no meio universitário e à frente de entidades científicas da área de Comunicação no Brasil, na América Latina e na Ibero-América.
Receber esse honroso título me traz dupla satisfação. Primeiro, porque ele me está sendo concedido pela Universidade Federal do Maranhão, nesta histórica cidade de São Luis. Segundo, pelo que ela representa de reconhecimento público da minha trajetória acadêmica.
A Universidade Federal do Maranhão, com mais de três décadas de existência, constitui um polo irradiador, para todo o Estado do Maranhão e a região norte-nordeste, de fomento à pesquisa, de produção científica, de formação em graduação e pós-graduação em diferentes áreas de conhecimento e de intenso e meritório trabalho social, mediante os inúmeros serviços que ela desenvolve na área sociocultural, abrangendo ações de organização social, de produção e inovações tecnológicas, de capacitação de recursos humanos e de valorização da cultura.
Nesse contexto, posso afirmar, com conhecimento de causa, que esta Universidade abriga, no seu Departamento de Comunicação Social, um curso exemplar de Relações Públicas, reconhecido nacionalmente e constituído em ícone vanguardista para esta região, por muitas razões. Citemos apenas algumas. O curso conta com um corpo docente preparado para oferecer uma formação marcada por um grande diferencial, sempre atento à busca de inovações para incorporá-las no seu cotidiano em sala de aula e na aplicação prática. Lembro-me de que, que no início dos anos 1980, quando começamos a preconizar uma visão social dessa área acadêmica e profissional, estive nesta instituição em um evento especial para compartilhar com o corpo docente e discente o verdadeiro significado das relações públicas comunitárias. E encontrei aqui um grupo de professores que, desde então e até hoje, luta pelo avanço construtivo desse campo e dessa atividade.
Este curso estar sediado em uma capital brasileira que em 1997 foi distinguida pela UNESCO como Patrimônio da Humanidade, em razão de sua importância como testemunho histórico, mais do que um privilégio, representa, ao mesmo tempo, um apelo e um desafio na busca de um constante aprimoramento científico e cultural por parte do seu corpo docente e discente.
A propósito, não foi por uma mera condescendência da mesma UNESCO que, na semana passada, concretamente no dia 18 de abril, São Luís acordou com o honroso título de Capital Americana da Cultura de 2012, sucedendo, neste ano, como referência cultural das Américas, a cidade de Quito, no Equador. Trata-se de um reconhecimento incontestável do patrimônio histórico, intelectual e cultural de São Luís. Nada mais acertado e, também, nada mais apropriado para exaltar esta cidade que, exatamente neste ano 2012, comemora seu quarto centenário.
Permito-me parafrasear aqui uma passagem de um belo texto que encontrei em um portal sobre o Maranhão. Diz ele que seu povo expressa a mais autêntica cultura deste País, “fruto do casamento perfeito entre as três raças matrizes que engendraram o povo brasileiro”.
Politicamente, o Maranhão é Nordeste. Geograficamente é uma mistura única de Norte-Nordeste. E, culturalmente, é marcado pelas heranças indígena, branca e negra, algo que só o encontro entre essas duas regiões e a intensa miscigenação do seu povo poderiam produzir, com muita coisa própria, que se tem evidenciado aqui pela sua rica culinária, seu artesanato, sua história, seu folclore, sua cultura popular, sua música, sua vocação para a poesia, seu lirismo, suas artes e suas letras.
Aliás, existiria alguém que não se lembre do imortal poeta maranhense Gonçalves Dias? Nele outro imortal, o cearense José de Alencar, viu “o poeta nacional por excelência”, assinalado pela “opulência da imaginação”, pelo “fino lavor do verso”, pelo “conhecimento da natureza brasileira e dos seus costumes selvagens". Tão grande era a paixão de Gonçalves Dias por sua terra que, tendo estudado por alguns anos em Coimbra, chegou a escrever a encantadora Canção do exílio para externar sua saudade do Brasil, terra que tem palmeiras onde canta o sabiá, cujo céu tem mais estrelas, cujas várzeas têm mais flores, cujos bosques têm mais vida, cuja vida tem mais amores.
Mas, voltemos ao que nos reúne agora neste Palácio Cristo Rei, marco da arquitetura colonial de São Luís, que, com sua história escrita desde 1877 e suas imponentes palmeiras imperiais, é candidato no concurso de escolha dos “sete tesouros de São Luís”, no contexto de seu quarto centenário.
Já disse de minha satisfação por estar recebendo exatamente aqui esse preito à minha trajetória acadêmica. Na verdade, não sei se mereço tanto. De qualquer forma, vejo nessa iniciativa da Universidade Federal do Maranhão uma comprovação de que vale a pena lutar por aquilo com que sonhamos e em que acreditamos.
Se fizermos um balanço dos campos das Relações Públicas e da Comunicação Organizacional no Brasil, veremos que demos grandes passos, tanto no âmbito acadêmico como no mercado profissional, sobretudo nas duas últimas décadas. A própria existência da Abrapcorp – Associação Brasileira de Pesquisadores de Comunicação e Organizacional e de Relações Públicas, que nesta semana realiza aqui seu sexto congresso anual, é uma prova cabal desses avanços. No entanto, ainda há muito por fazer. Temos que investir ainda mais na formação do corpo docente dos cursos de Relações Públicas, sobretudo das instituições privadas. Só assim conseguiremos reverter a situação em que alguns se encontram, ameaçados de fechamento, talvez por uma percepção um tanto quanto equivocada de redução de demanda, talvez por estruturas curriculares não tão apropriadas, talvez pela falta de professores preparados científica e tecnicamente e sem engajamento com o campo da comunicação e com a profissão de relações públicas.
A universidade tem um papel vital nesse contexto. Ela deve ter como missão formar profissionais capazes de intervir na transformação social, política e econômica do mundo contemporâneo, num ambiente de complexidade e de incertezas nunca visto na história da humanidade, apesar do surpreendente progresso da era digital. No campo comunicacional, temos que contribuir com todo o poder das mídias e das mídias sociais para a construção de uma sociedade mais democrática e mais consciente de seus direitos e deveres, eliminando, ou pelo menos minimizando, os efeitos nefastos das desigualdades e injustiças sociais.
O mercado do mundo corporativo, governamental e do terceiro setor espera contar com profissionais de relações públicas e de comunicação preparados para enfrentar constantes desafios, aquinhoados com uma sólida formação geral, humanística e técnica, dotados de uma visão crítica e estratégica. Atuando junto às instituições públicas e às organizações sociais em geral, devemos promover o verdadeiro sentido da sustentabilidade, tema contemporâneo da agenda mundial, que prevê o desenvolvimento integrado do tripé econômico-social-ambiental. Nesse sentido, temos que estar atentos ao que irá acontecer na Conferência Rio+20, em junho deste ano.
Agradeço de coração a todos que sempre me deram as mãos em minha trajetória de vida, acadêmica e profissional.
Minha gratidão à Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo, onde encontrei o espaço e as condições institucionais por excelência para a pesquisa científica e a liberdade para criar e desenvolver atividades que sempre acreditei serem relevantes para o avanço dessas áreas de conhecimento.
Minha gratidão ao meu saudoso mestre Candido Teobaldo de Souza Andrade, pioneiro das relações públicas brasileiras, que me incentivou a progredir na caminhada acadêmica. Aliás, ele esteve muitas vezes aqui, para incentivar a implantação e o desenvolvimento do curso de Relações Públicas desta Universidade. E, diga-se de passagem, apreciava os doces maranhenses, que, invariavelmente, levava daqui ou encomendava aos docentes que se deslocavam para São Paulo...
Minha gratidão a meus orientandos e ex-orientados de doutorado, mestrado e especialização, bem como a meus bolsistas de iniciação científica. A meus alunos e ex-alunos de graduação da ECA-USP. Aos profissionais que participaram e participam do Curso de Gestão Estratégica em Comunicação Organizacional e Relações Públicas da ECA-USP e de cursos que ministro no País e no exterior. E a todo o grande número de estudantes de Relações Públicas do Brasil, de quem tenho recebido muitas manifestações de carinho e com os quais tenho aprendido muito.
Minha gratidão aos meus pares, colegas de jornada da Comunicação Organizacional e das Relações Públicas, muitos dos quais aqui presentes, pelo convívio fraterno, pela troca de saberes e ideias e pelo apoio de sempre.
Por fim, sobretudo, meu reconhecimento muito sincero, cordial e penhorado ao Conselho Universitário da Universidade Federal do Maranhão, que, acolhendo a proposição do Departamento de Comunicação Social e do Curso de Relações Públicas, me agracia, por meio do digníssimo reitor Prof. Dr. Natalino Salgado Filho, com o título de professora honoris causa, o primeiro em minha trajetória de 35 anos no magistério superior.
Permitam-me, ainda, render aqui um preito muito especial à minha abençoada família de origem. Somos em nove irmãos, privilegiados por uma formação do caráter e de sentimentos de solidariedade com os outros que só nossos pais poderiam nos ter dado. Tenho certeza de que eles estão no céu celebrando este momento comigo.
Compartilho esta conquista com os entes mais queridos do meu cotidiano. Com meu marido Waldemar, jornalista e relações-públicas, que, já durante 40 anos, tem compartilhado de perto a minha trajetória. Com minhas filhas Adriana, Graziela e Clarice, luzes e inspiração nesta caminhada. Com minha neta Clara, que, com sua alegria contagiante, me faz prosseguir com entusiasmo na conquista de ideais que continuam abertos à minha frente.
Muito obrigada a todos e a todas aqui presentes, pela alegria que me dão de comemorar este momento tão significativo para minha vida!
Título professor honoris causa
Prof. Dr. Esnél José Fagundes
Senhoras e senhores,
Antes de tudo, declaro-me honrado por saudar a grande homenageada desta noite, a professora-doutora Margarida Maria Kroling Kunsch. A professora, a pesquisadora, a autora, todos conhecem. É inegável que, sem Margarida Kunsch, o campo das Relações Públicas e, consequentemente, da Comunicação, no Brasil e no mundo, não seriam os mesmos. Muito do conhecimento conceitual e prático que se tem acumulado nestas áreas deve-se a Margarida Kunsch.
Em que pese, porém, a pujança de sua produção acadêmica e a sua atuação profissional, o que desejo destacar, neste momento, é a generosidade, o lado humano, comprometido e ético de Margarida Kunsch, sobretudo sua relação com o curso de Comunicação Social da Universidade Federal do Maranhão.
Importa-me registrar que todos nós conhecemos os equívocos e até mesmo os preconceitos que ocorrem nas relações centro periferia, quer seja entre países ou entre as unidades da federação brasileira. Em muitas ocasiões, deparamo-nos com barreiras quase intransponíveis, em razão das distâncias geográficas e acadêmicas, de certo, mas principalmente em função de posturas políticas que segregam e afastam grupos que têm as mesmas funções sociais como os professores, por exemplo.
Na contramão dos comportamentos referidos, atua Margarida Kunsch. Poderia citar inúmeros casos em que esta professora colocou-se disponível em apoio e orientação aos professores do curso de Comunicação Social da UFMA. Simbolizo com alguns desses momentos: o primeiro diz respeito ao incentivo e apoio que todo professor maranhense recebe, quando vai fazer pós-graduação na USP. É sabido que as portas de Margarida, principalmente de sua biblioteca particular, estão sempre abertas para nós.
O segundo diz respeito à defesa que Margarida faz do nosso trabalho e da nossa função, advogando para nós igualdade de condições, como o que aconteceu com a constituição da comissão de especialistas do MEC, quando Margarida fez questão absoluta de defender a participação do Maranhão. Tive, naquela ocasião, a honra de representar o nosso estado. Tal não ocorreria sem a sensibilidade de Margarida.
Inspira-me refletir com Edgard Morin, ao afirmar que, [...] quando os filósofos descem de sua “torre de marfim” ou os técnicos ultrapassam sua área de aplicação especializada para defender, ilustrar, promulgar ideias que têm valor cívico, social ou político, eles tornam-se intelectuais. Nesses termos, é que classifico Margarida Kunsch.
Sua disposição, a forma respeitosa como trata, certamente a todos, mas, em específico, como nos trata, transcendem ao seu status de pesquisadora, de professora renomada, de autora consagrada. Sua postura, professora Margarida, lembra o conceito gramscino de intelectual orgânico, a serviço das revoluções, das causas por igualdade e justiça social.
Não me refiro a questões macroestruturais de que fala Gramsci, mas me aproprio deste conceito para identificar que sua atuação tem o sentido revolucionário nas microestruturas, pela doação e o respeito que você tem conosco e isto é transformação. É revolução!
Senhoras e senhores, embora eu tenha priorizado, em minha fala, a condição humana de nossa homenageada, sei que são indissociáveis as dimensões profissionais e pessoais.
Nesse sentido, a Universidade Federal do Maranhão reconhece, na professora Margarida Maria Kroling Kunsch, virtudes e méritos para torná-la professor honoris causa desta Universidade. Afinal, Margarida é um clássico e, como tal, permite-se a si mesma e aos outros as honrarias, o elogio, a revisão e até a crítica, mas nunca o esquecimento ou a superação. Os clássicos são eternos.
Diga-se, por oportuno, que Margarida tem sempre o sentido da reinvenção e da democratização da sua produção intelectual. Também é verdade que a dimensão profissional por si mesma daria lindas, justas e comoventes homenagens. Mas a opção por vê-la e homenageá-la enfatizando o lado pessoal foi mais forte. Olhar e admirar a Margarida esposa, mãe, amiga, avó, a Margarida que desmistifica a sua própria condição de intelectual; a Margarida que não se traveste de nada que não seja ela mesma, em sua inteireza e singularidade, foi irresistível neste exercício discursivo.
E é a esta Margarida que a UFMA, por meio do Departamento de Comunicação Social, em especial, o Curso de Relações Públicas reverenciam nesta noite.
Parabéns, professora Margarida e obrigado por tudo!



