‘ESTAMOS EM MEIO A UM VENDAVAL’, AFIRMA PRESIDENTE DA INTERCOM

01 de maio de 2019

Em 5 de maio, é celebrado no Brasil o Dia Nacional das Comunicações. Se a data foi originalmente escolhida em homenagem a Marechal Rondon pela construção das linhas de telégrafo no Brasil, em 2019 a data exige uma reflexão sobre os novos fluxos comunicacionais e sua relação com a democracia e as relações humanas. “A crise é representativa. Será que vamos retroceder para uma sociedade mais autoritária ou será que é um momento que vai gerar uma democracia mais colaborativa?”, questiona Giovandro Marcus Ferreira, professor da Faculdade de Comunicação da Universidade Federal da Bahia (UFBA), onde coordena o Centro de Estudo e Pesquisa em Análise do Discurso e Mídia (CEPAD) e o Centro de Estudo em Comunicação, Democracia e Cidadania (CCDC), e atual presidente da Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação (Intercom) e da Federação Lusófona de Ciências da Comunicação (Lusocom).

Para marcar o Dia Nacional das Comunicações, o JORNAL INTERCOM conversou com o professor Giovandro sobre a carreira acadêmica no campo da Comunicação (e na área de Humanidades como um todo), as transformações sociais, culturais e políticas relacionadas às novas mídias e aos novos fluxos da comunicação, a atual crise da democracia e as esperanças e preocupações acerca de todos esses temas.

Após iniciar sua atuação profissional no jornalismo, o capixaba Giovandro Ferreira graduou-se em Comunicação, com habilitação em Jornalismo (UFES), e em Filosofia (PUC-Minas) – “que hoje vem sendo bastante criticada”. As titulações de mestrado e doutorado foram adquiridas na França (Université Paris 2 - Panthéon-Assas). O caminho da pesquisa lhe foi natural, sempre trilhado na confluência entre as teorias comunicacionais e os movimentos sociais. “Minha primeira atuação como jornalista foi ligada aos movimentos sociais, que chamamos de comunicação alternativa e popular. Sou professor de Teorias da Comunicação, mas minha história e minha pesquisa são muito ligadas à cidadania e à comunicação comunitária”, conta.

Sobre os fluxos comunicacionais e a crise da democracia – tema que guiará as discussões do congresso da Intercom neste ano, de 2 a 8 de setembro na Universidade Federal do Pará (UFPA), em Belém – o professor Giovandro dá uma verdadeira aula, mostrando como os novos fluxos de comunicação (principalmente nas redes sociais) estão influenciando uma transformação da representatividade na sociedade global. E conclui: “Nós estamos em meio a um vendaval, o importante é não perder de rumo questões fundamentais: a diversidade, o respeito às diferenças e o braço estendido a grupos fragilizados da sociedade”.

Confira a entrevista na íntegra.

JORNAL INTERCOM – COMO O SENHOR ENXERGA A SITUAÇÃO DA PESQUISA EM COMUNICAÇÃO HOJE NO BRASIL?
GIOVANDRO FERREIRA – O discurso de que vão priorizar a pesquisa para o retorno imediato faz uma leitura equivocada, como se as Humanidades não tivessem esse retorno. Muito pelo contrário: na academia, o fundamental, primeiro, é defender a autonomia universitária, uma luta histórica desde a Idade Média. Você tem pesquisas nas Humanidades que trazem uma preocupação muito próxima do cotidiano das pessoas. Podemos falar da própria pesquisa na Comunicação, que hoje tem lugar privilegiado para a reflexão sobre as transformações socioculturais. As transformações na sociedade têm a implicação forte e profunda dos meios de Comunicação. Nós podemos pegar a sociedade num sentido amplo, e também no sentido mais restrito das transformações da democracia na sociedade contemporânea: os meios de comunicação estão fortemente implicados [nessas transformações].

JORNAL INTERCOM – O SENHOR TEME QUE JOVENS GRADUANDOS SE AFASTEM DA PESQUISA, A PARTIR DO MOMENTO EM QUE A ÁREA ACADÊMICA DE HUMANIDADES DEIXA DE SER PRIORIDADE DECLARADAMENTE?
GIOVANDRO FERREIRA – Há uma atitude que aparenta um menosprezo pelas Ciências Sociais e para as Humanidades, que infelizmente é uma leitura míope e carregada de preconceito. Como se ali fosse um lugar de produção de ideologias que devem ser combatidas. Infelizmente é uma visão muito pequena. Por exemplo, quando você tem aquela discussão da escola sem partido: a escola é de todos os partidos, tem gente de todo tipo de agremiação e em geral, quando alguém fala de universidade sem partido, é porque só quer o próprio partido lá dentro. É uma visão muito empobrecedora do ambiente plural como é o universitário.

Mas, por outro aspecto, existe a dinâmica da sociedade. A juventude hoje está muito mais interessada na pesquisa do que na minha geração. Nos últimos anos, vi a ampliação das universidades públicas – por exemplo, na Universidade Federal da Bahia (um processo que eu acompanhei de perto), nós tínhamos 23 mil alunos e, alguns anos depois, com a ampliação e com o Reuni [Reestruturação e Expansão das Universidades Federais], passamos para 40 mil. De uma certa maneira, criamos uma outra universidade dentro da UFBA. Implementamos as políticas alternativas. A universidade se tornou cada vez mais um lugar plural, não só em termos quantitativos, mas também em termos qualitativos. Cada vez mais, nós temos os problemas e os desafios da sociedade dentro da universidade, com alunos que chegam até mesmo com dificuldades econômicas para entrar e permanecer na universidade. Criamos as condições que nos permitem ver jovens de periferia e de outras cidades da Bahia e do Brasil vindo e descobrindo um novo mundo – esse mundo da pesquisa, da atividade acadêmica. Eles participam e agarram com unhas e dentes a oportunidade. Transformamos a realidade sobretudo pela educação. Sendo realista e otimista, hoje vejo que se produz muito mais ciência do que há 10, 20 anos atrás. É verdade que existe uma política que muitas vezes não é animadora, sobretudo para quem está nas Ciências Sociais, mas é importante preservar esses avanços, esse interesse da juventude que estamos estudando. Questões fundamentais da nossa sociedade passam por essa produção das Ciências Humanas e Sociais: moradia, violência, são temas que atingem fortemente as Humanidades. Implica o Direito, implica a Comunicação, implica educação, implica a questão territorial. São domínios fundamentais da sociedade, o que torna as Ciências Sociais profundamente pertinentes.

JORNAL INTERCOM – O SENHOR ACHA QUE OS MEIOS DE COMUNICAÇÃO CONTRIBUEM PARA A CRISE DEMOCRÁTICA ATUAL?
GIOVANDRO FERREIRA – Quero frisar que tudo isso está muito ligado à área da pesquisa, e quero trazer um olhar histórico para o tema. Estamos em um lugar privilegiado para entender essas mudanças da sociedade como um todo, e da democracia em particular. As grandes mudanças da comunicação sempre estavam fortemente implicadas nas transformações socioculturais. Uma referência é a criação da imprensa, a Revolução de Gutenberg. Essas transformações acabaram com o feudalismo e ali surgiram as nações. Imagine um vilarejo na Alemanha ou no interior da França: alguém vivia toda a sua existência se relacionando com a família e com os vizinhos. O que era viver? Era ouvir as histórias dos mais velhos, trabalhar, conviver com a família, ter filhos, netos e morrer. O que surge? Um civilização do jornal. Não só surgem vários impressos, mas temas variados: moda, política, política internacional, outros locais cada vez mais na baila. Nesse momento, uma instituição milenar rachou, que foi a Igreja Católica. Veja a situação de um momento com uma forte presença dos meios de comunicação, no caso a imprensa: novas ideias surgindo, as pessoas começando a ter uma outra percepção do território, que passou a ser nacional. Um outro marco: na pós-Revolução Industrial, há uma consolidação da comunicação de massa. Adentrando o século XX, você tem o cinema, você tem o rádio e, mais um pouco à frente, a televisão. Você tinha instituições de quatro mil anos, como o Império Austro-Húngaro, que com 800 anos virou pó. E, então, um momento de virada: não é mais uma cultura nacional, mas de uma cultura planetária. Uma percepção do planeta. Alguns anos depois, estamos falando de cultura global. No início do século, há cidades com jornais cujas tiragens são de 1 milhão. A mudança é profunda nessa sociedade; abalou impérios, em um momento muito forte de transformações em que as comunicações estão extremamente implicadas. O velho vai acabando, mas o novo demora a chegar. Aí aparecem os monstros.

Estamos vivendo agora também uma transformação profunda nas comunicações. Há uma revolução, e as transformações mais profundas que percebemos na sociedade têm muito a ver com a relação das pessoas com o espaço – e a comunicação sempre foi isso na história da humanidade. Quando você vê uma pintura rupestre, é como se o humano da caverna falasse "Eu vou embora, mas eu deixo minha marca aqui". A relação com o tempo e o espaço sempre foi algo que mobilizou o ser humano, e a comunicação surge muito implicada nessas utopias.

No momento em que vivemos, observamos mudanças em vários aspectos. Não se pega mais táxi como se pegava há 10 anos, não se hospeda em um hotel como se hospedava há 10 anos... Podemos fazer uma lista sobre como se trabalhava há 10 anos, como se fazia um notícia, como se dava aula. Está havendo uma profunda transformação. E aí entra a questão da democracia. Porque o que está em crise é também a representatividade democrática. A relação que tenho com minha filha não é a mesma que eu tinha com meu pai; as relações eram muito mais verticalizadas em diversos aspectos. A crise é representativa. Será que vamos retroceder para uma sociedade mais autoritária ou será que é um momento que vai gerar uma democracia mais colaborativa? É este o momento de transição que estamos vivendo, e não só no Brasil. É bom dizer que cada país tem suas especificidades, mas pegue os jalecos amarelos na França, olhe a polêmica na Espanha. É um momento muito delicado, mas de profundas transformações.

JORNAL INTERCOM – PASSANDO A FALAR MAIS DIRETAMENTE SOBRE O TEMA DOS CONGRESSOS DA INTERCOM EM 2019, “FLUXOS COMUNICACIONAIS E A CRISE DA DEMOCRACIA”: COMO A PESQUISA EM COMUNICAÇÃO PODE CONTRIBUIR PARA O ENFRENTAMENTO DESSA CRISE DEMOCRÁTICA?
GIOVANDRO FERREIRA – Existem várias frentes interessantes na articulação entre a Comunicação e a democracia. Os estudos ligados à midiatização, por exemplo: como analisar as transformações sociais e socioculturais, e que papel têm os meios de comunicação nisso? É muito interessante analisar o comportamento tanto dos políticos quanto da população nesse novo cenário midiático. Você tem cada vez mais dificuldade de estabelecer mediações. Antes a população que tinha uma reivindicação procurava um primeiro mediador (como um vereador, um representante de bairro, apresentava a reivindicação); marcava-se uma reunião com o prefeito e aquilo era levado adiante, transformava-se num projeto que era discutido e encaminhado. Hoje, antes de fazer algo, o político vai tuitar. A população, no lugar de reivindicar, passa o dia inteiro monitorando o Twitter. Nós estudamos essa crise da mediação e como hoje se estabelecem outras circulações – circulações estas fortemente implicadas nos meios de comunicação. Cria-se uma outra circulação, que interfere na representatividade e em como ficam as autoridades que estão em meio a isso.

Assim, trata-se de uma crise de representatividade no sentido amplo e também no sentido restrito ao campo político. São outros parâmetros. Até então você não tinha essa expressividade de cada um. A evolução do acesso transformou nossa sociedade – em graus diferentes, é bem certo – em uma sociedade de emissores, em que há a reverberação de muitas vozes diferentes. Por exemplo, a leitura dos comentários já faz parte da leitura de uma notícia; o jornalista deixou de ser o protagonista único.

Essa discussão da crise da democracia no fundo abarca uma crise mais ampla. Essa gama de mudanças e transformações se reflete na gestão de políticas públicas, que hoje tem novas maneiras de ser feita. Precisamos pensar nessa gestão e refletir quais transformações são essas dentro das transformações maiores. Lembrando que a censura pode acontecer tanto por falta quanto pela abundância de informação (por esse barulho). O barulho é uma forma de você não deixar transparecer o que é fundamental para a discussão.

Essa crise é muito ampla e temos que analisar como cada vez mais ela gira em torno de dois polos do ser: as relações cada vez mais globais e as relações em que cada vez mais procuramos descobrir quem somos. Que identidade nós temos dentro desse barulho e dessas mudanças? Imagina o que era no século XV alguém perguntar "quem sou eu" frente àquelas transformações. É o que está acontecendo agora. A civilização da internet está falando: "Como eu construo minha identidade? Me publicizando nas redes?". A comunicação está muito implicada na construção da identidade das pessoas. Nós sempre fomos redes sociais, mas hoje o termo está diretamente ligado à internet; antes dela, as comunicações faziam o fluxo comunicacional de um para muitos, em uma relação mais ampla, sem a possibilidade técnica de reproduzir grupos. A internet possibilitou a criação de redes, de grupos. E agora vemos a história da humanidade sendo reproduzida também no interior desse ambiente comunicacional. A preocupação de teóricos no passado em relação à comunicação das massas – sobretudo quando surgem regimes autoritários e totalitários – passou a ser a preocupação com a manipulação também das “bolhas”.

É preciso destacar também o uso dos dados, das informações. Como se deu a eleição de Donald Trump nos Estados Unidos, por exemplo? Quem detém os dados detém um olhar privilegiado da realidade. Quem detém os dados das sociedades do mundo hoje são os mecanismos on-line, o Google, o Facebook, a Amazon. Muitas políticas foram mudadas em decorrência desses dados. Cada vez mais teremos empresas querendo ocupar o lugar do Estado nesse cenário. Hoje o debate gira fortemente em torno dessa realidade: como a exposição de dados reverbera na nossa vida cotidiana? Quanto vai custar? Nossa população está gerando dados, e grandes corporações, sobretudo americanas, detêm esses dados. Que tipo de influência e de ação essas empresas vão ter em relação a diferentes sociedades? Afinal, são dados que os governantes não terão. Isso é uma questão forte para a democracia contemporânea. Veja as reverberações que tudo isso teve nas últimas eleições mundo afora. É uma questão global.

JORNAL INTERCOM – O CENÁRIO ATUAL O PREOCUPA?
GIOVANDRO FERREIRA – Sim, é preocupante. A democracia, se não é o melhor, é o menos pior. Quando você começa a abalar a democracia, é preciso pensar em algumas questões delicadas. Uma delas é a importância de ter abertura para o diálogo. Antes você tinha teocracia – a verdade está com Deus –, depois a aristocracia – a verdade está com alguns – e aí surge a democracia – a verdade está entre nós, através do diálogo e da discussão. Hoje, nós temos um ambiente de acirramento, muitas vezes encabeçado por lideranças políticas. No lugar do diálogo, surge a polêmica. Cada um em seu castelo, lançando flechas no castelo alheio. É extremamente preocupante, porque gera não a convivência, a diversidade e a tolerância, mas uma perspectiva de intolerância. Não se consegue dialogar com as diferenças. Quando um líder motiva isso, a situação torna-se mais acirrada e mais agressiva. A democracia busca o diálogo, e não a ação violenta (ameaças, vigilância do próximo, gravações em sala de aula, ambientes que geram medo e insegurança). É algo muito ruim, até mesmo para a formação dos jovens e da personalidade.

Outro lado muito preocupante é a busca por subjugar minorias, principalmente num país desigual como o nosso. Ao motivar a marginalização de grupos que já são marginalizados, em uma ação muitas vezes orquestrada por lideranças, para onde estamos marchando? Para onde está indo o nosso país? Que tipo de ação nós queremos construir? Desafios sempre vão existir, mas não podemos desistir deste país. Temos desafios para solidificar a democracia, mas, sobretudo, não podemos perder a importância da pluralidade, do respeito ao outro e dos grupos marginalizados. Essas preocupações são não só democráticas, mas civilizatórias. As mudanças geram reação. Como vamos buscar construir cada vez mais o processo civilizatório, mesmo sabendo que a História, como diria o poeta [Vladimir Maiakóvski], é um mar agitado? Nós estamos em meio a um vendaval, o importante é não perder de rumo questões fundamentais: a diversidade, o respeito às diferenças e o braço estendido a grupos fragilizados da sociedade.

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